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Vale do Pati recompensa caminhadas árduas com cachoeiras e mirantes

Felipe Floresti
Do UOL, no Vale do Pati (BA)*

Uma trilha pelos campos da Chapada Diamantina segue em direção a um paredão de pedra. O que era plano aos poucos vai se tornando subida. As pedras crescem conforme a caminhada se alonga. Tomam o lugar do caminho, como degraus desproporcionais de uma escada natural. A vegetação baixa não protege do sol, que castiga. A mochila pesa. 

A trilha é só um risco em meio ao verde. A estrada ficou para trás. A cidade ficou para trás. O aumento da tarifa do transporte público ficou para trás. A única falta d’água que preocupa agora é a da garrafinha, que já está na metade e é só o começo do caminho. Foram só os primeiros dos mais de 80 quilômetros a serem percorridos nos próximos dias. É a entrada do Vale do Pati.

Moldado na Serra do Sincorá pelos rios Calixto, Pati e Cachoeirão, o vale tem altitudes que oscilam de 400 a 1.400 metros. Não há estradas. Para se ter uma ideia, os moradores da região não demoram menos que três horas para ir a uma das cidades dos arredores. Sempre caminhando. Por Guiné, distrito de Mucugê; Capão, distrito de Palmeiras; e Andaraí que se chega ao Pati. Não tem melhor caminho. 

Seguimos pela trilha do Aleixo, subindo a Serra do Rio Preto. Chegar ao topo é como adentrar um portal. Somos transportados para uma paisagem semiplana coberta por campos de altitude. A monotonia do horizonte é quebrada por grandes morros vermelhos. Estamos nos Gerais do Rio Preto. 

A água que escorre pelo Vale do Pati quase sempre tem coloração vermelha. Essa fica em uma nascente nos Gerais do Rio Preto
Juntamente com o Gerais do Vieira, o local é responsável por abrigar as nascentes dos rios que formam a depressão do Vale do Pati, assim como a bacia hidrográfica do Rio Paraguaçu, um dos mais importantes da Bahia.

A caminhada se torna mais fácil e agradável. A vegetação, que no início não passa a canela, vai crescendo a cada passo. Aos poucos chega à cintura. Vira floresta quando escutamos barulho de água, que corre até formar um pequeno poço.

Poucos metros adiante, medo e encanto se misturam ao notarmos que estamos ao lado de um penhasco de 280 metros de altitude. Chegamos ao cânion do Cachoeirão. O visual é de tirar o fôlego. Mirantes deixam o turista à beira do precipício. Lá embaixo muitas pedras e um pequeno lago. É para lá que vamos, mas só no dia seguinte.

Cachoeirão por baixo

Os nativos que vivem no Pati abrem suas casas para receber os turistas que visitam o vale. A pouca energia elétrica das placas solares são usadas para iluminação e importantíssimas para recarregar a câmera fotográfica. O banho é gelado. O fogão, à lenha. A chaleira tem sempre uma água fervendo como se esperasse a hora do café. Nos quartos, uma cama e nada mais. Simples e bem cuidada, a hospedagem é mais que o suficiente para garantir descanso adequado após um intenso dia de caminhada.

A trilha adentra o cânion até um poço de águas avermelhadas em formato de coração. Estamos no pé do Cachoeirão. Dizem que quando chove bastante são formadas até vinte quedas d’água.

As chuvas, que chegam com intensidade em outubro, vão perdendo a força com o passar dos meses. Havia pouca chuva quando estivemos por lá. A pouca água que descia do paredão de 280 metros de altura, entretanto, era suficiente para criar um espetáculo. 

Algumas fendas nas laterais do cânion revelam outras quedas d'água. Em uma delas, os dez metros de uma cachoeira terminam em uma banheira de hidromassagem natural. Seguindo pela trilha ao lado, outras cachoeiras se formam. Combinações diversas de água, vento e a luz do sol formam uma sequência deslumbrante fenda adentro.

Mas já era hora de voltar. Precisávamos pegar os mochilões na casa de Seu Eduardo e seguir para a Prefeitura. Localizada na região central do Vale, a Prefeitura é o antigo centro administrativo da região. Hoje, como as outras casas, recebe viajantes.

Chegando lá, porém, nosso guia, o Clei, nos perguntou se não queríamos estender a caminhada e chegar direto à casa de Dona Raquel. Seria nosso pouso das próximas duas noites e assim evitaria mais deslocamentos com a mochila (fato que sempre deve ser levado em consideração no planejamento da viagem).

Dona Raquel

Dona Raquel é como a sua vó que mora no interior. Sempre tem um cafezinho com pão feito ali mesmo no forno à lenha para oferecer a seus “netos”, uma dezena de turistas que diariamente vem e vão de sua vida, de todos os cantos do mundo. “É um sentimento muito grande com todo mundo que passa aqui. Alguns chegam até a emocionar. Todo mundo sempre vem perguntar se tem um cafezinho. Eu abraço todo mundo”, contou dona Raquel, que concluiu: “Outro dia eu fui pra São Paulo e não abracei ninguém”.

Não é difícil entender o choque de Dona Raquel. É proporcional ao vivido por todo o viajante que percorre caminho inverso. No Pati não existe sinal de celular, internet, barulho de carro, poluição de fábrica. São três geladeiras em todo o Vale - uma delas da própria Dona Raquel - e apenas trinta moradores.

Mas nem sempre foi assim. O Pati chegou a ter 2.000 habitantes no início do século passado. Onde hoje se vê mata, já esteve ocupado por extensas plantações de café. A crise de 1929 iniciou um período de decadência da atividade econômica da região. Só ficou quem não tinha como sair. A criação do Parque Nacional, em 1985, complicou ainda mais a vida de quem morava lá, com a limitação de construções e plantio.

A situação só melhorou com a chegada do turismo. Mas André, 28, filho de Dona Raquel e sexta geração de “patizeiros”, está preocupado. O número de moradores vem caindo cada vez mais rápido. “Ninguém aguenta ficar aqui não, moço. Vai aguentar ir para Guiné duas vezes por semana para comprar as coisas? Não aguenta”.

“Quem tem filho não fica porque a criança tem que ir para escola. Aqui tinha uma, mas fechou porque não tinha criança. Como vai abrir escola para um só?”, desabafa. “Quem vai ficando velho também tem que sair. Os filhos não deixam ficar. Vai que acontece alguma coisa e não tem um médico”.

Morro e cachoeira

A pior parte é de manhã, antes de sair para caminhar. As dores e hematomas acumulados dos dias anteriores pesam e a vontade é de passar o dia de pernas pro ar. Mas para conhecer o Pati é necessário caminhar, e no terceiro dia o foco era o Morro do Castelo. 

A caminhada, como não podia ser diferente, é íngreme e cansativa. Sobe uma escada de pedras e raízes por uma hora até chegar à entrada de uma caverna. Atravessar a gruta é caminho até o mirante do outro lado do Morro do Castelo. Do alto, todo o vale do rio Calixto, com vista aérea das cachoeiras do Calixto e do Funil (atrações dos próximos dias). É fácil entender por que o Pati é considerado um dos destinos de trekking mais bonitos do Brasil.

O caminho para o Calixto dá a volta no Morro do Castelo, percorrendo sua encosta irregular. É bastante cansativo, mas como era o único afazer do dia, não se tornou tão pesado. Só restou se banhar no poço, explorar outras quedas d’água dos arredores, e aproveitar, já que o dia seguinte é o da despedida.

A caminhada para ir embora era a mais tranquila dos últimos dias. Por isso resolvemos passar na cachoeira do Funil antes. É a de mais fácil acesso do Vale. O caminho vai tranquilo por uma trilha sombreada. Com cerca de 30 metros de altura, a cachoeira tem um poção bem gelado para tomar banho. Sob a queda d’água, pedras submersas formam uma poltrona para sentir o impacto água sobre a cabeça com todo conforto.

Para ir embora, o guia nos levou por um caminho com emoção, segundo ele. Saltando e escalando pedras, subimos o rio Pati montanha acima. Ao longo do rio diversas cachoeirinhas passam praticamente despercebidas. A abundância mantém no anonimato algumas das belezas do Pati.

Visitamos a Igrejinha, que existe desde os tempos mais tumultuados do vale, e é o ponto de hospedagem mais próximo para quem entra por Guiné ou pelo Capão. Após subir uma rampa, fomos presenteados com a última vista panorâmica do Vale do Pati. Estávamos de volta aos Gerais do Rio Preto.

Conforme caminhávamos para ir embora, com o sol quente na cabeça e a mochila pesando as costas, a vontade era de chegar ao carro o mais rápido possível. Mas é como na ilha do seriado "Lost": um esforço enorme para sair, para depois ficar dizendo que quer voltar de qualquer jeito. O que fica foi explicado por uma turista, no intervalo entre uma e outra dança na noite de forró da Dona Raquel: "Depois de sair daqui, de conseguir andar isso tudo, a sensação é de que consigo fazer o que quiser na minha vida". 

* O repórter Felipe Floresti conheceu o Vale do Pati a convite da Agência de Ecoturismo Bicho de Serra